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Destaques do Samba

Candeia – Raiz, Arte e Luta

Publicado em 21 de julho de 2010

Antônio Candeia Filho, 17/8/35 – 16/11/78. Filho de sambista, o menino Candeia até poderia guardar mágoa do samba. Em seus aniversários, ele contava com certa tristeza, não havia bolo, velinha, essas coisas de criança. A festa era mesmo com feijoada, limão e muito partido-alto. No Natal, a situação se repetia.

Seu pai, tipógrafo e flautista, foi, segundo alguns, o criador das Comissões de Frente das escolas de samba. Passava os domingos cantando com os amigos debaixo das amendoeiras do bairro de Oswaldo Cruz. Assim, nascido em casa de bamba, o garoto já freqüentava as rodas onde conheceria Zé com Fome, Luperce Miranda, Claudionor Cruz e outros. Com o tempo, aprendeu violão e cavaquinho, começou a jogar capoeira e a freqüentar terreiros de candomblé. Estava se forjando ali o líder que mais tarde seria um dos maiores defensores da cultura afro-brasileira. Arte negra era com ele mesmo.
Compôs em 1953 seu primeiro enredo, Seis Datas Magnas, com Altair Prego: foi quando a Portela realizou a façanha inédita de obter nota máxima em todos os quesitos do desfile (total 400 pontos).
No início dos anos 60, dirigiu o conjunto Mensageiros do Samba. Em 61, entrou para a polícia. Tinha fama de truculento e suas atitudes começaram a causar ressentimentos entre seus antigos companheiros. Provavelmente, não imaginava que começava a se abrir caminho para a tragédia que mudaria sua vida. Diz-se que, ao esbofetear uma prostituta, ela rogou-lhe uma praga; na noite seguinte, ao sair atirando do carro num acidente de trânsito, levou um tiro na espinha que paralisou para sempre suas pernas.
Sua vida e sua obra se transformaram completamente. Em seus sambas, podemos assistir seu doloroso e sereno diálogo com a deficiência e com a morte pressentida: Pintura sem Arte, Peso dos Anos, Anjo Moreno e Eterna Paz são só alguns exemplos. Recolheu-se em sua casa; não recebia praticamente ninguém. Foi um custo para os amigos como Martinho da Vila e Bibi Ferreira trazê-lo de volta. De qualquer maneira, meu amor, eu canto, diria ele depois num dos versos que marcaram seu reencontro com a vida.
Ouça a música “De qualquer maneira” com Candeia
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O couro voltou a comer nos pagodes do fundo de quintal de Candeia que comandava tudo de seu trono de rei, a cadeira que nunca mais abandonaria.
No curto reinado que lhe restava, dono de uma personalidade rica e forte, Candeia foi líder carismático, afinado com as amarguras e aspirações de seu povo. Fiel à sua vocação de sambista, cantou sua luta em músicas como Dia de Graça e Minha Gente do Morro. Coerente com seus ideais, em dezembro de 75 fundou a Escola de Samba Quilombo, que deveria carregar a bandeira do samba autêntico. O documento que delineava os objetivos de sua nova escola dizia: Escola de Samba é povo na sua manifestação mais autêntica! Quando o samba se submete a influências externas, a escola de samba deixa de representar a cultura de nosso povo.
No mesmo ano de 75, Candeia compunha seu impressionante Testamento de Partideiro, onde dizia: Quem rezar por mim que o faça sambando.
Em 78, ano de sua morte, gravou Axé um dos mais importantes discos da história do Samba. Ainda viu publicado seu livro escrito juntamente com Isnard: Escola de Samba, Árvore que Perdeu a Raiz.
Quilombo, pesquisou suas raízes….
Muitos conhecem a luta do mestre Antônio Candeia Filho contra a descaracterização das escolas de samba que durante a década de 70 tomou conta dos desfiles e os sambista viam o samba se tornar um mero coadjuvante diante do gigantismo e dos novos valores que passavam a reger os desfiles durante o carnaval.
Descontentes, alguns sambistas de prestígio dentro da Portela, entre eles, Candeia, chegaram a redigir uma carta à direção da escola propondo mudanças e sugestões.
Clique e acesse abaixo na íntegra, o texto da tal carta que encontramos no blog “Só Candeia”. Um documento de grande valor para a história do nosso samba e que mostra a preocupação com os rumos que o samba tomava naquela época:

A carta acima não teve sequer resposta do diretor Carlos Teixeira Martins, ou Carlinhos Maracanã e, infelizmente, o final dessa história todo mundo conhece: O carnaval aos poucos foi se tornando um produto cada vez mais influenciado por grupos que pouco tinham a ver com as escolas e o samba perdeu sua tradição, tornando-se um mero acompanhante nos deslumbrantes e arrojados desfiles, em que a figura do carnavalesco tornava-se mais importante que a dos compositores.
Candeia, em um trecho do livro que escreveu em parceria com Isnard Araújo, intitulado “Escola de Samba: árvore que esqueceu a raiz”, publicado em 1978:
“Os verdadeiros sambistas, ou seja, Mestre-Sala e Porta-Bandeira, os passistas, os ritmistas, os compositores, as baianas, os artistas natos de barracão, são, hoje em dia, colocados em segundo plano em detrimento de artistas de telenovelas, dos chamados ‘carnavalescos’, ou seja, artistas plásticos, cenógrafos, coreógrafos e figurinistas profissionais. Ao substituirmos os valores autênticos das Escolas de Samba, nós estamos matando a arte-popular brasileira, que vai sendo desta maneira aviltada e desmoralizada no seu meio-ambiente, pois Escola de samba tem sua cultura própria com raízes no afro-brasileiro.”
Mas nem tudo estava perdido.
Candeia, já decepcionado com sua escola do coração, recebeu de um amigo o pedido de ajuda na compra de instrumentos para um bloco, intitulado Quilombo dos Palmares, que pretendia fundar em um terreno baldio, na Rua Pinhará, no bairro de Rocha Miranda.
Foi aí que o que era uma simples idéia começou a se tornar realidade: a criação de uma nova escola de samba, livre das imposições que tomavam conta do carnaval, feita por pessoas que tinham na luta pela preservação do samba um dos seus maiores valores.
Nascia então, no dia 08 de dezembro de 1975 (dia de Nossa Senhora da Conceição) o “Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo”, ou simplesmente, o GRANES Quilombo.
As cores da escola foram escolhidas pelo próprio candeia: o dourado, que representava o ouro e homenageava Oxum (que no sincretismo religioso é representada por Nossa Senhora da Conceição), o branco, que simbolizava a paz e a pureza e o lilás, que nas palavras de Candeia, era inspirado na beleza de uma flor e representava a África.
Seu símbolo, uma palmeira, em homenagem ao mais conhecido quilombo, o Quilombo de Palmares. Entre seus fundadores destacavam-se Waldir 59, (parceiro de Candeia em diversos sambas enredo feitos para a Portela), Paulinho da Viola, Wilson Moreira, Elton Medeiros, Monarco, os jornalistas Lena Frias e Juarez Barroso, entre outros.
Na época, o recém-formado estudante de Letras, João Baptista Vargens, após um dos inúmeros encontros promovidos por Candeia para articulação da escola em dezembro de 1975, escreveu um manifesto de fundação, que exprimia de forma incisiva os propósitos e ideais da nova escola que nascia:
“Estou chegando…
Venho com fé.
Respeito mitos e tradições.
Trago um canto negro.
Busco a liberdade. Não admito moldes.
As forças contrárias são muitas.
Não faz mal…Meus pés estão no chão.
Tenho certeza da vitória.
Minhas portas estão abertas. Entre com cuidado.
Aqui, todos podem colaborar. Ninguém pode imperar.
Teorias, deixo de lado.
Dou vazão à riqueza de um mundo ideal.
A sabedoria é meu sustentáculo,
O amor é meu princípio,
A imaginação é minha bandeira.
Não sou radical.
Pretendo, apenas, salvaguardar o que resta de uma cultura.
Gritarei bem alto desafiando um sistema que cala vozes importantes
E permite que outras totalmente alheias falem quando bem entendem.
Sou franco-atirador. Não almejo glórias.
Faço questão de não virar academia. Tampouco palácio.
Não atribua a meu nome o desgastado sufixo -ão.
Nada de forjadas e malfeitas especulações literárias.
Deixo os complexos temas à observação dos verdadeiros intelectuais.
Eu sou povo.
Basta de complicações. Extraio o belo das coisas simples que me seduzem.
Quero sair pelas ruas dos subúrbios com minhas baianas rendadas sambando sem parar.
Com minha comissão de frente digna de respeito.
Intimamente ligado às minhas origens.
Artistas plásticos, figurinistas, coreógrafos, departamentos culturais, profissionais:
Não me incomodem, por favor.
Sintetizo um mundo mágico.
Estou chegando…”

O Jornal do Brasil anunciava, no dia 17 de dezembro de 1975, em uma reportagem de página inteira, o nascimento do Quilombo.
Veja um trecho da reportagem de Juarez Barroso
“As escolas de samba cariocas agigantaram-se, deformaram-se à medida que se transformaram (ou pretenderam transformar-se) em shows para turistas. O tema é polêmico, tratado por quase sempre em tom passional.
Deformação ou evolução? Será possível o retorno à pureza, ao comunitarismo dos anos 30, quando essas escolas se consolidaram? (…) O sambista Candeia, liderando outros sambistas descontentes com a situação, prefere responder de modo objetivo. E responde com a fundação de uma nova escola de samba, Quilombos, escola que terá sede em Rocha Miranda e irá para a Avenida mostrando como era e como deve ser o samba. (…)
E continuava o sonho: ‘Uma escola em que tudo fosse feito pelo povo. As costureiras do lugar fazendo as fantasias. Não ia ter esse negócio de figurinistas de fora não. As alegorias também, tudo de lá mesmo, escolhido lá.’ (…) E uma coisa fica bem clara: Quilombos, mais que uma escola de samba, será uma escola de sambistas, um modelo para outras escolas, uma referência.”
Wilson Moreira relembra:
“Ele falou: ‘Wilson, eu vou fundar uma escola de samba. Você tá comigo?’. Eu falei: ‘Candeia, eu só não vou sair da Portela…’. “Não, não precisa sair da Portela, ninguém precisa sair de suas escolas. Como o Xangô tá com a gente, Elton tá com a gente, Clementina tá com a gente, fulano, beltrano, sicrano…, Jorginho Peçanha tá com a gente’. Jorginho do Império. Eu falei: Tá legal! Vamos fundar a Quilombo.”
Em 1976, em matéria para o jornal Última Hora, Candeia resume os propósitos do GRANES Quilombo:
- Desenvolver um centro de pesquisas de arte negra, enfatizando sua contribuição à formação da cultura brasileira;
- Lutar pela preservação das tradições fundamentais sem as quais não se pode desenvolver qualquer atividade criativa popular;
- Afastar elementos inescrupulosos que, em nome do desenvolvimento intelectual, apropriam-se de heranças alheias, deturpando as das escolas de samba, e as transformam em rentáveis peças folclóricas;
- Atrair os verdadeiros representantes e estudiosos da cultura brasileira, destacando a importância do elemento negro em seu contexto;
- Organizar uma escola de samba onde seus compositores, ainda não corrompidos “pela evolução” imposta pelo sistema, possam cantar seus sambas, sem prévias imposições. Uma escola que sirva de teto a todos os sambistas, negros e brancos, irmanados em defesa do autêntico ritmo brasileiro.

Outro fato interessante foi que a situação política do Brasil naquela época, em que a falta de liberdade imperava, mesmo com o regime militar já enfraquecido, favoreceu a capacidade que o Quilombo de Candeia alcançou de “aglutinar as pessoas”, funcionando como uma “válvula de escape”, “um lugar de resistência”, um Quilombo dos Palmares revivido.
Assista ao trailer do documentário “Eu Sou Povo”, de Bruno Bacellar, Luis Fernando Couto e Regina Rocha:

Muitas foram as dificuldades enfrentadas para que o Quilombo pudesse desfilar no carnaval de 1977. Mesmo assim, devido ao empenho de seus componentes, a escola não só se apresentou pelas ruas dos subúrbios de Coelho Neto e Acari, como fechou o carnaval na Avenida Presidente Vargas. O impacto parece ter sido positivo, como sugerem os comentários da imprensa na época:
“A presença da Escola de Samba Quilombo foi, na verdade, a grande novidade no desfile de campeões do Carnaval 77, fechando com chave de ouro uma festa que teve tudo igual aos anos anteriores. [...] Com um contingente de 400 pessoas, dentre as quais os astros da música popular Paulinho da Viola, Candeia, Martinho da Vila, Xangô e Clementina de Jesus, diversos intelectuais e sambistas de outras agremiações, Quilombo, com suas fantasias tricolores, branca, lilás e dourado, quase rouba o espetáculo, que ficou por conta da Beija-Flor e seu Carnaval-Evolução, e do Canarinho das Laranjeiras. [...] Desfilando livre e descontraída pela avenida, sem esquemas, imposições, figurinos ou estrelas, despreocupada com novas fórmulas de 70, apresentação musical ou com contagem de pontos, a escola de samba Quilombo mostrou, ontem, o verdadeiro papel de uma escola de samba e apresentou seu Carnaval de 77 visando apenas realizar a mais genuína festa brasileira”. (A Notícia, 23/2/1977).

“A escola desfilava sem subvenção e carregava apenas duas faixas fazendo alusão ao “samba sem pretensão” e ao “samba dentro da realidade brasileira”. Para os mais atentos, esta diferença tomou outra dimensão nas cinco horas que antecederam o momento do desfile. Na Rua General Caldwel, esquina com a Presidente Vargas, o Quilombo reunido, tendo Candeia ao centro, tocava samba-de-roda, lutava capoeira e dançava o jongo – dança dos escravos – quase esquecido da festa de que participaria em breve” (Movimento, 7/3/1977).

Para se ter uma idéia da importância de Candeia na organização e estruturação da escola, basta darmos uma olhada no depoimento de Pedro Carmo dos Santos, um dos primeiros integrantes do Quilombo:
“Em 77, tinha o Candeia, o Quilombo tinha uma facilidade tremenda. Ele chegava e falava assim: ‘O que é que está faltando aí?’, para os chefes de alas. ‘Está faltando o quê?’ Ou para as costureiras. E eu falava: ‘Para a Ala das Crianças e para a Ala das Baianas está faltando pano.’
O Candeia saía e, quando ele voltava, o carro cheio de peças de pano. A gente: ‘Comprou aonde?’ ‘Comprei?! Eu sou o Candeia, rapaz! Eu sou o Candeia! Eu ganhei. Foi doado para o Quilombo. Ia em São Paulo e trazia peças de bateria do Quilombo, trazia essas coisas todas. Era tudo facilidade. Tinha as costureiras, tinha as máquinas… A esposa dele que comandava tudo, a dona Leonilda. Fazia aquelas feijoadas, aquelas comidas, fazia festival de chope, para angariar fundos, para o Quilombo fazer alguma coisa”.
O desfile de 1978 foi especial: marcava a última participação de Candeia no comando de sua escola. O samba enredo foi composto por Wilson Moreira e Nei Lopes. “Ao povo em forma de arte” é uma obra prima, que demonstra a preocupação do sambista em preservar sua cultura e seus valores em um tempo em que tudo parecia se perder.
Quem esteve lá pôde presenciar a emoção do Casquinha que às lágrimas dizia: “Tá tudo direitinho. tudo certinho. Parece a Portela de antigamente”.
Panfleto divulgando o samba do GRANES Quilombo, em 1978

Em novembro de 1978, Candeia partiu de repente. Foi compor sambas com seus companheiros lá no céu. Deixou um legado que representa o que há de mais puro no samba, suas canções hoje são entoadas como hinos em rodas de samba, inspirando jovens que tomam sua luta pela preservação do samba e da cultura negra com um ideal a ser seguido e propagado.
Alguns, à primeira vista diriam que a luta de Candeia e do Quilombo foi em vão. Hoje o carnaval é um produto de exportação, escravo da mídia, que movimenta quantias milionárias, o samba corrido, sem a beleza das letras e melodias dos saudosos compositores.
Mas, quem gosta de samba pode perceber em cada roda, em cada blog, em cada fórum na internet, que a luta de Candeia nunca foi em vão, que o samba ainda hoje tem seus defensores, que não deixam desaparecer sua tradição, sua beleza e riqueza, em que têm em Candeia uma fonte de inspiração, que nos dá forças para mantermos a chama sempre acesa.
Salve Candeia!

Ouça um depoimento dos filhos de Candeia sobre a criação do GRANES Quilombo:
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Fonte de consulta:
O Quilombo de Candeia: Um teto para todos os sambistas (2009).
Dissertação de mestrado de Ana Cláudia da Cunha
Fundação Getúlio Vargas

Assista o documentário Partido Alto
Diretor Leon Hirszman
Elenco Candeia, Manacéia, Paulinho da Viola
Ano 1982
Duração 22 min

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Este artigo recebeu 1 comentário

  • floriano silva disse:

    não estava lá de corpo presente, porém minha mente sintonizou e hoje traduzo em meus simples mas verdadeiros versos a filosofia de um mestre e visionário, pode ter certeza meu mestre a chama continua acesa e seus ensinamentos repassados serão, com dignidade e sem vaidade.

    Belo documentário, parabéns.


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