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Destaques do Samba

Dona Ivone Lara – A Dama do Samba – 90 anos

Publicado em 10 de abril de 2011

João Máximo
RIO – Dona Ivone Lara – 90 anos na próxima quarta-feira – prega um susto em quem lhe pergunta se continua a fazer samba:
– Não, parei…
Para logo depois corrigir:
– … por enquanto. Daqui a pouco, se Deus quiser, volto.
É bom saber que a parada é curta, apenas uma breve pausa no trabalho de uma mulher que há 70 anos vem ajudando a enriquecer o samba – e gêneros afins – com o raro dom de criar melodias.

Parar, mesmo, Dona Ivone não pretende tão cedo. Tem perto de 15 sambas recém-feitos com o parceiro Délcio Carvalho e continua aceitando convites para shows, como o de duas semanas atrás, no Rival. Tudo isso apesar das limitações impostas pela recuperação de uma fratura no fêmur e da vista direita perdida em razão da necrose decorrente de um glaucoma.
– Da esquerda, enxergo perfeitamente – diz ela, deixando claro que os óculos são apenas para não modificar a imagem que todos conhecem.
O aniversário será comemorado em família, com direito a bolo, feijão branco e roda de choro, esta um presente do músico Abel e de seu grupo. Dona Ivone vive hoje com o filho Alfredinho, a nora Eliana, netos e bisneto, numa acolhedora casa de Osvaldo Cruz. O ambiente é tipicamente suburbano, com o mesmo espírito de vizinhança que Dona Ivone conheceu no Rio de antigamente.
– Esta era uma rua sem saída – conta Eliana. – Desde que viemos morar nesta casa, pensamos em fechar a entrada para transformar o local num condomínio, mas fazia 20 anos que um dos vizinhos era contra. Até que o convidamos para uma roda de samba aqui em frente, e ele mudou de ideia.

Samba de Dona Ivone Lara realmente tem força. É o que explica ela ter passado a vida a superar barreiras que pareciam separá-la do prazer de viver a música. Em menina, morando na Tijuca, fugia de casa para dançar e cantar nos terreiros do Salgueiro. Quando voltava, apanhava da mãe, que, apesar de cantora do Rancho Flor do Abacate, queria outra vida para a filha. O pai, sete cordas do Bloco dos Africanos, morreu quando Dona Ivone tinha apenas 3 anos. Aos 10, perdeu a mãe.
Por esses dados, acredita-se que tenha sido pouca a influência dos pais sobre Dona Ivone. Da mesma forma, o curto tempo em que estudou com Lucília Villa-Lobos, mulher do maestro famoso, não antecipou o que seria a compositora (foi por essa época que, aluna de Orsina da Fonseca, cantou “A lavadeira” no coro regido pelo próprio Villa-Lobos).

- Fui criada por uma tia, tia Cota, que também não gostava de samba – lembra ela, já se referindo aos tempos de Serrinha, quando trocou, para sempre, o Salgueiro pelo Império Serrano. – Tia Cota gostava de jongo, mas não de samba, que ela achava coisa para homem. Achava que eu, moça que pretendia fazer curso superior, não devia me misturar com a gente da escola.
O curso foi feito: enfermagem. Do qual ela muito se orgulha. – Graça a isso pude me aposentar aos 58 anos.
Enfermeira e, depois, assistente social, funções que dividiria, sem problemas, com a de baiana a desfilar pelo Império.
Já a resistência de tia Cota começou a ser vencida com a cumplicidade do primo, Mestre Fuleiro, que começou a levar para a escola as primeiras tentativas da compositora. Naturalmente, sem citar-lhe o nome (Dona Ivone não diz, mas alguns sambas que, assinados por outros, fizeram sucesso, dentro e fora do Império, tinham o dedo dela).

- Até que me convidaram para ser a madrinha da ala dos compositores. Fui a primeira mulher a conseguir isso.
O convite não veio logo após as primeiras amostras levadas por Fuleiro. Dona Ivone tinha 16 anos quando compôs “Tiê”, e já havia feito com $de Oliveira e Bacalhau um dos maiores sambas-enredos já ouvidos num desfile: “Cinco bailes da história do Rio”, em 1965, quando a cidade completou 400 anos. Consta que ela entrou na parceria exatamente como, ainda hoje, atua no Império: acabando a música que os parceiros (no caso, bêbados) não conseguiam. Dona Ivone conta:
– Volta e meia eles me chamam: “Madrinha, vem dar um ajudinha.” Vou com prazer.
É sinal de que ela continua firme e fiel ao Império Serrano.
– O Império? Está fraco, quase morrendo. Se tivesse mais uma escola esse ano, tínhamos perdido o sexto lugar (no Grupo de Acesso A).

Seus próprios sambas são trabalhados de outra maneira. Inspiradíssima (“Você percebe que o talento dela não é comum, não é usual”, assevera Paulão Sete Cordas, o violão que a conhece muito de perto), Dona Ivone vai criando seus temas e, muitas vezes, passando-os por telefone a Délcio ou a outro parceiro. Suas melodias sempre têm a precedência.
Dona Ivone, o mesmo sorriso, o mesmo rosto sem rugas, a mesma elegância nos gestos e na fala, chega aos 90 acreditando (sem trocadilho com “Acreditar”, grande samba dela e Délcio). No dia do aniversário, lança seu site.

A cantora mineira Márcia Lima vai gravar disco só de sambas seus que não fizeram muito sucesso. Título: “Lado B”. A mineira Aline Calisto inclui três inéditos em seu próximo CD. Fatos aparentemente triviais, mas recebidos com o mesmo contentamento dos triunfos que Dona Ivone vem multiplicando em tantos anos: apresentações em França, Alemanha, Suíça, Dinamarca, Gana, Angola, Nova York. Seu disco “Nasci para sonhar e cantar”, com título definidor, foi lançado em 2001 (o mesmo ano em que o pianista Leandro Braga lhe dedicou um CD instrumental e um songbook). Ganhou prêmio, $muito no Brasil, na França, Alemanha, Austrália e até no Paquistão.

No meio de todas essas vitórias, só uma queixa:
– Das gravadoras. Não me divulgam, não me pagam, não me dão satisfação, só se apropriam do que é meu.
Uma informação: pelo DVD que a Universal produziu com ela, “todo ele praticamente vendido”, recebeu menos de R$ 2 mil. De direitos autorais, R$ 74. Isso mesmo: setenta e quatro reais.
Apesar da queixa, momento raro em Dona Ivone, ela não perde o jeito sereno e simples. De tal modo que, às vezes, somos levados a crer que, no fundo, a artista não tem exata consciência de seu papel, de sua importância. No máximo, ao falar sobre si mesma, ela se permite uma explicação de por que é quem é. Como no depoimento que deu ao Museu da Imagem e do Som (MIS) em 2008: “Eu me faço respeitar.” Em seu caso, respeitar é pouco. Dona Ivone Lara nasceu para sonhar, cantar e ser cultuada.

Assista ao clipe com Martinho da Vila e Dona Ivone Lara – Alguém me avisou – Tiê


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Este artigo recebeu 2 comentários

  • fabio disse:

    PARABÉNS à 1ª dama do samba. 90 é pra ser respeitado. Infelizmente no Brasil (onde se reclama do governo e se vota nas mesmas pessoas), artista não é respeitado nem valorizado. Viva o Samba!!! Parabéns pelo excelente site.

  • giovana lorena oliveira boracine disse:

    eu adorei, mas estou fazendo uma biografia para a escola e por isso preciso de mais coisas sobre a mae dela
    obrigada giovana


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