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Notícias

Escolas de SP abrem ensaios para deficientes visuais

Publicado em 03 de fevereiro de 2011

Wladimir D’andrade

A Camisa Verde e Branco abriu ontem as portas da sua quadra para um ensaio com a participação de um grupo de deficientes visuais. Ao mesmo tempo em que apresentaram seu universo de luxo e alegria, os integrantes da escola de samba paulistana puderam conhecer um outro mundo, onde só as sensações ajudam a moldar formas e cores. Os deficientes se deixaram conduzir pelos carnavalescos por entre estandarte, fantasias e instrumentos musicais para então construir, com mãos, ouvidos e imaginação, um carnaval particular.

Os convidados são 15 deficientes visuais escolhidos pela São Paulo Turismo (SPTuris) para participar do programa “Só Não Vê Quem Não Quer”, que em parceria com a Fundação Dorina Nowill e a Faculdade Metropolitanas Unidas (FMU) promove visitas aos bastidores do carnaval paulistano. Eles e outros 30 selecionados compareceram às sedes de três escolas de samba para conhecer o processo de preparação de um desfile. E, na passagem das agremiações no Sambódromo, nos dias 4 e 5 de março, terão um camarote exclusivo na avenida.
Na quadra da escola, os guias da Camisa Verde e Branco conduziram as mãos dos deficientes até as fantasias expostas. Daí em diante a curiosidade dos visitantes assumiu as ações. Pouco a pouco, os dedos alcançaram delicadamente as plumas e os tecidos. Passaram pelo busto, pelas ombreiras, até chegar ao chapéu. “As penas são de verdade?”, perguntou Giovanna Maira, cantora profissional. “Isso brilha?”, questionou. Abriram os braços para conferir o tamanho das fantasias e vestiram os chapéus para ter noção do peso. Perguntaram sobre cores que, em muitos casos, nunca viram.
Aqueles que já nasceram sem a visão aprendem sobre cores por meio de associações. Vermelho é fogo, calor. O verde lembra a textura da grama, o novo. E assim constroem um mundo baseado não em diferentes tipos de tonalidade, mas num emaranhado próprio de sensações e imaginação. “Se me dizem que a fantasia brilha, penso em estrelas”, explicou Giovanna, de 24 anos, que ainda era bebê quando um tumor tirou toda a função de seus olhos verdes. “O meu vermelho é só meu”, disse.
Os deficientes visuais acabam por desenvolver outros sentidos. “Sinto a ”irradiação” das pessoas à minha volta. Se alguém chega com uma fantasia bonita do meu lado, consigo senti-la. É algo inexplicável”, descreveu Ubirajara Alves Domingos, de 48 anos, que não enxerga há seis anos por causa de um glaucoma congênito (aumento da pressão intraocular).
Bira, como é chamado, integra a percussão da Camisa desde seus 16 anos. Desfilava na linha de frente da bateria. Já tocou surdo, repique e caixa. A cegueira não o impediu de participar do carnaval. “Hoje minha audição é mais aguçada. Se algum instrumento sai do compasso, eu percebo logo de cara, melhor que os diretores de bateria”, disse o paulistano que cresceu no bairro do Limão, zona norte da cidade. Bira, a mulher e seus companheiros da escola de samba desenvolveram para a hora do desfile uma série de toques que indicam a direção que ele tem de caminhar, o momento de parar e o lado para virar o corpo.
“Cada vez a gente se surpreende com alguma coisa nova”, disse Luiz Sales, diretor de Turismo da SPTuris. Tadeu Augusto Matheus, o T. Kaçula, vice-presidente da Camisa, concorda. “A escola passa por diversas dificuldades financeiras e estruturais. A gente passa perrengue aqui, mas essas pessoas mostram que é possível superar limites”, afirmou.
Festa
Bira ajudou a apresentar os instrumentos aos outros deficientes. Colocou as baquetas nas mãos dos visitantes e governou os braços deles no ritmo do samba. “Deixa o pulso bem mole”, pediu à aposentada Arlene Viana da Paixão, de 71 anos, que já perdeu praticamente toda a visão também por causa de glaucoma.
Momentos depois, quando a bateria da escola resolveu dar seu show, quem roubou a cena foi a cantora Giovanna. Com o microfone, soltou sua voz em “O Que É, O Que É?”, de Gonzaguinha. Os sambistas da escola, os funcionários da SPTuris e todos os presentes na quadra pararam para vê-la, enquanto os deficientes e seus acompanhantes puxavam a fila de um trenzinho pela quadra. Já tinham criado o próprio carnaval.


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