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Jovem põe em livro a história das escolas de samba

Publicado em 05 de janeiro de 2011

Para uma parcela pequena dos cariocas, o carnaval começa lá pelo meio do ano, com a escolha dos sambas-enredo nas quadras das escolas. Pega fogo em dezembro e agora em janeiro, com os ensaios técnicos no Sambódromo, e tem seu clímax em fevereiro – ou março, como em 2011, capricho do calendário que só faz estender o prazer pré-festa.

Aos 17 anos, o estudante João Bastos não está entre esses fanáticos. Ainda assim, dedicou-se ao tema nos últimos três anos e escreveu Acadêmicos, Unidos e Tantos Mais – Entendendo os desfiles e como tudo começou (Editora Folha Seca), em que trata das raízes das escolas, detalha o significado de cada quesito sob julgamento e lista os resultados obtidos pelas escolas desde 1932, com seus enredos, carnavalescos e curiosidades.
Não que o garoto, filho da classe média fluminense, seja um completo neófito no universo do samba carioca. É verdade que ele nunca desfilou, nem sequer pisou, numa quadra e só foi assistir ao espetáculo duas vezes (a família prefere passar o carnaval no fresquinho de Teresópolis, na região serrana). E ainda tem dúvidas se o carnaval é mesmo a melhor época do ano – compete com o Natal.
Desde os 5 anos, no entanto, por influência de uma babá e posterior incentivo dos pais e do padrinho, ele acompanha tudo pela televisão. E se mantém bem informado, a ponto de escrutinar os carnavalescos – “Paulo Barros é o mais criativo, mas Renato Lage é o mais completo e versátil” – e os jurados – “acho que a maioria não gosta tanto de carnaval” – e definir os melhores desfiles de todos os tempos – “Acho que Peguei o Ita no Norte (do Salgueiro, em 1993, aquele do refrão Explode Coração na maior felicidade, um dos sambas-enredo mais famosos) nunca mais vai se repetir.”

João Bastos. 'Sou um nerd sambista', afirma o rapaz

Curiosamente, 1993 é o ano de seu nascimento. Este é mais um dos desfiles que ele só viu em DVD (tem uma coleção de antigos carnavais). João mora em Botafogo com os pais e a irmã, se formou no tradicional colégio Santo Inácio e a partir deste ano será estudante da PUC (vai cursar Economia). Pouco antes de dar início à vida universitária, ele fará sua estreia na Sapucaí, por sua Mangueira, com a mãe e uma prima.
“Eu pensava: quando passar no vestibular, vou me dar esse presente. Chegou a hora! Sempre fiquei até de manhã vendo na TV”, conta o rapaz, que selecionou também fotos de cenas memoráveis, da Xica da Silva do Salgueiro de 1963, na Avenida Presidente Vargas, ao segredo da Unidos da Tijuca de 2010.
A ideia do livro surgiu há três anos. O projeto ganhou espaço na Editora Folha Seca e mais força com o endosso do historiador do samba Sérgio Cabral, pai, jornalista que escreve sobre as escolas desde a década de 1960, e a quem João chegou por meio de seu avô: os dois senhores se conheceram em uma academia de ginástica.
Paixão. Cabral assina a orelha e elogia o garoto: “O melhor da história é que João Bastos está apenas começando”, louva. “O fato de um menino de 17 anos estar escrevendo sobre escolas de samba revela que hoje há mais interesse pelo assunto”, diz Cabral, cujas pesquisas tomam por base fontes primárias (fundadores, componentes e compositores históricos).
“Sou um nerd sambista. Não gosto de ficção científica nem entendo muito de computador”, brinca João. “Os livros do Cabral, do Hiram Araújo, do Alberto Mussa e do Luiz Antonio Simas (em que pesquisou) são brilhantes. Não tenho pretensão com o meu. Tem gente que diz: você viveu muito pouco. Mas o que eu quero é que a geração que está crescendo comigo saiba que o mais importante da escola de samba não é o carnavalesco, é quem trabalha nos barracões, quem é apaixonado por aquilo.”
PARA LEMBRAR
Sambódromo passará por reforma
O Sambódromo será reformado neste ano para resgatar o projeto original, feito há 30 anos pelo arquiteto Oscar Niemeyer. O projeto foi apresentado no dia 14 e prevê a construção de novas arquibancadas, camarotes e frisas, banheiros, áreas de serviço e de atendimento médico.
Com a nova estrutura, o Sambódromo vai ganhar mais 15 mil lugares e servirá, também, para competições esportivas, como as provas de tiro com arco na Olimpíada de 2016. As obras estão orçadas em R$ 30 milhões e serão custeadas pela Companhia de Bebidas das Américas (Ambev), dona dos antigos prédios no local que pertenceram à Cervejaria Brahma e deverão ser derrubados.

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